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Inspirada na Pedagogia Waldorf, escola promove educação antirracista em João Pessoa
Laura de Andrade
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Inspirada na Pedagogia Waldorf, a Escola Filhos do Sol, localizada em João Pessoa, desenvolve um projeto educacional pensado em valorizar a cultura afro-brasileira e combater o racismo. Além das atividades intensificadas em novembro, mês da Consciência Negra, a instituição incorpora esses temas em seu currículo ao longo de todo o ano letivo, envolvendo os alunos em experiências enriquecedoras com música, dança, contação de histórias e outras expressões culturais.

“O papel da educação é poder trazer essa temática de outras culturas para o dia a dia das crianças, que isso se torne algo orgânico, presente, não somente no mês da Consciência Negra ou no momento que celebra o dia dos povos originários”, disse a diretora Stefanie Salgueiro.

Alunos da Escola Filhos do Sol tiveram a oportunidade de explorar manifestações da cultura afro-brasileira, como a confecção da boneca abayomi (Foto: Divulgação)

Uma das ações da escola ao longo do mês da Consciência Negra foi a contação de histórias afro-brasileiras, ferramenta poderosa na formação das crianças, e que oferece benefícios emocionais, cognitivos e sociais. Os alunos exploraram o mundo da literatura infantil e expandiram tanto as referências, quanto o conhecimento sobre a temática com o “Vem cantar, vem ouvir: Histórias Afro-brasileiras para crianças com Patrícia Carneiro”.

Curso de Letramento Racial

Também como parte das atividades promovidas pela escola, aconteceu o curso de Letramento Racial para Iniciante. Comunidade escolar, incluindo os pais, responsáveis, professores e o público externo participaram da formação. A professora Rosa Maria ministrou o curso. 

A aula teve como objetivo principal promover a desconstrução de práticas e pensamentos naturalizados pela sociedade, visando capacitar os participantes para identificar e combater o racismo.

Professora do 1º ano da Escola Filhos do Sol, Alessandra do Nascimento participou do curso e acredita que é importante debater questões raciais que permeiam a sociedade e, consequentemente, o ambiente educacional. “O letramento racial nos ajudou a reconhecer como o racismo estrutural se manifesta na prática pedagógica, no currículo escolar e nas interações entre os educandos”, disse.

Paula Freire, mãe de dois alunos de 11 anos da Escola Filhos do Sol, também participou do curso. Para ela, a aula contribuiu na desconstrução de alguns pensamentos, ao assumir o papel que ela tem, sem culpa, mas com responsabilidade, inclusive materna, de construir um mundo melhor com um novo olhar. “Aprendi a ressignificar minha história e formação, estando atenta a como posso agir diferente desde minha fala e postura, até minha forma de olhar pra cultura do povo africano, indígena, com mais valor”, disse a mãe.

Ela falou sobre o que chama de “afetos” envolvidos na sua educação. “Esses afetos trazem à tona pontos de minha história que precisam ser ressignificados para que não perpetuem em meus filhos uma educação preconceituosa. Mas, ao mesmo tempo, é de respeito à minha história, sem a culpa, porque entendo que recebi aquilo que podia, nos limites que meus pais puderam dar, em um mundo que não tinha espaço ainda para este tipo de educação que temos oportunidade de viver hoje”, desabafa.

O espaço de escola é essencial para este tipo de discussão e oferta de formação, acredita Paula. Ela fala da corresponsabilidade, ou seja, responsabilidade conjunta, de gerar um novo mundo a partir da educação. Para essa mãe, a Filhos do Sol é “uma escola que investe na família, investe em uma educação potente, com parceiros”.

Débora Fernanda, mãe de um aluno de 10 anos e que também participou do curso, afirmou que o racismo é estrutural na sociedade, historicamente construído e, por isso, é importante letramentos como o que foi oferecido pela escola inspirada na Pedagogia Waldorf.

“Mesmo estando em uma jornada de letramento racial há algum tempo, sempre identifico em mim algum ponto a ser trabalhado nessa questão. E o curso me propiciou novamente essa reflexão pessoal, que muitas vezes dói reconhecer. Por isso a luta antirracista deve ser constante”, disse Débora.

Para a segunda mãe, a oferta da reflexão proposta pela escola para a comunidade escolar, por meio do curso de Letramento Racial para Iniciantes, contribui com a desconstrução sócio-histórica do racismo. “Nos fortalece enquanto educadores que somos dos nossos filhos, pois estamos educando o tempo todo, estamos transmitindo nossa visão de homem e de mundo enquanto os educamos”, disse a Débora.

A professora do 3º ano do Ensino Fundamental da Escolha Filhos do Sol, Letícia Siqueira, contou à reportagem que a equipe da escola Filhos do Sol estuda a cultura sem desconsiderar os fatores sociais que a cercam, por exemplo, sem deixar de mencionar que por mais que as crianças admirem os orixás e suas histórias, o Brasil possui grande índice de violência às populações afro-brasileiras, sobretudo as que aderem a religiosidades que diferem do cristianismo padrão. 

Segundo Letícia, o letramento racial é indiscutivelmente essencial aos educadores, e poder vivenciar tanto o curso quanto as palestras junto ao corpo de pais da escola trouxe um diferencial às relações entre a família e a escola.

“Por mais que compreendamos a importância social e profissional do letramento racial na profissão dos professores, as famílias precisam estar alinhadas e acessar as mesmas fontes de conhecimento da equipe pedagógica para que a educação de fato flua”, disse a educadora.

Comunidade escolar engajada contra o preconceito

Assim como Letícia, Stefanie também defende a importância de envolver toda a comunidade escolar no combate ao preconceito.

“Eu vejo que o impacto [de ações como as que ocorreram em Novembro na escola] a gente pode sentir ao longo do tempo, dos dias. A gente vai observando como as crianças vão lidando, como vão percebendo a diversidade, e como vão tratando isso. E eu vejo que depende bastante do papel da família […] a família precisa estar junto”.

Letícia falou sobre a atuação da escola no combate ao racismo. Na Filhos do Sol, os professores têm liberdade para incluir a cultura brasileira seja nas atividades, como nas dinâmicas e passeios.

Às crianças mais novas, a escola traz o combate ao racismo por meio das histórias e da inclusão de figuras mitológicas, personagens, cantos e contos com pessoas negras, pardas e indígenas. 

Stefanie é diretora da Escola Filhos do Sol (Foto: Divulgação)

Para as crianças maiores, os temas são abordados ao longo do ano. No dia 8 de março, a escola trabalhou, junto aos alunos, a história da escritora, compositora e poetisa brasileira Carolina Maria de Jesus. “Buscamos incluir figuras negras nos diferentes contextos, ressaltando seu papel, sua cor e suas conquistas não só na semana da consciência negra”, disse Letícia.

Crianças da Escola Filhos do Sol tiveram acesso à história da boneca e criaram suas próprias abayomis (Foto: Divulgação)

Confecção da boneca abayomi

Os alunos do maternal Broto da Escola Filhos do Sol tiveram a oportunidade de explorar manifestações da cultura afro-brasileira, como a capoeira, o maracatu e a confecção da boneca abayomi. A boneca, confeccionada exclusivamente com retalhos de tecido e nós, representa resistência e afeto, explica a professora Rafaely Rayane das Neves. Ao investigar a origem da abayomi, descobriu uma narrativa popular amplamente divulgada no Brasil, mas que não reflete a história verdadeira.

A partir disso, passou a procurar a origem da boneca. “A abayomi foi criada por Waldilena Serra Martins, uma educadora e ativista do movimento negro do Maranhão. A Abayomi nasceu em 1987, pelas mãos de Lena [Waldilena], aqui no Brasil, tendo sido levada a diversas partes do país e até mesmo para fora do Brasil”, conta a educadora.

No maternal Broto, as crianças tiveram acesso à história da boneca com a narrativa na versão de Waldilena, além da criação da abayomi de forma “lúdica e encantada”, segundo a professora. No último dia em que a história foi apresentada à turma, elas também puderam acompanhar a confecção das bonecas pelas professoras Rafaely e Selda Suruagy. “Cada criança levou para casa sua própria boneca e a história de Lena [Waldilena] e da abayomi guardada em seu coração”, disse Rafaely.

Ida ao quilombo Ipiranga

Nos dias 7 e 29 de novembro, as crianças foram para o quilombo Ipiranga, localizado no Gurugi. A atividade foi conduzida pela mestra Ana do Coco. Lá, as crianças foram acolhidas e puderam colecionar experiências enriquecedoras, como a visita ao museu em uma casa de taipa, criar conexões com o local, e aprender mais sobre história, cultura e a resistência dos povos.

Mostra Pedagógica

No final do mês, dia 30, aconteceu a Feira Girassol. A abertura ficou por conta da Mostra Pedagógica, onde os alunos realizaram uma exposição dos conteúdos trabalhados em sala de aula durante todo este ano letivo. O momento também teve expositores com comidas, bebidas e o brechó das professoras.

Educação afro-brasileira contínua 

No mês de agosto, as crianças do 3º ano aprenderam sobre a orixá Iansã, em representação à época dos ventos. “A gente tem, lá na minha sala, esse olhar de trazer figuras negras e representações religiosas, místicas, históricas […] Eu resolvi trazer Iansã porque é uma coisa que eu conheço”, disse Letícia.

A educadora trouxe contos que falam de Iansã porque a série costuma estudar a criação do mundo na mitologia hebraica. No entanto, na Escola Filhos do Sol, são trabalhados outros tipos de mitologias, além da hebraica, e que não interfiram no que a pedagogia Waldorf propõe. Logo, as mitologias brasileira e iorubá podem ser incluídas. 

“Os orixás estão muito ligados na criação do mundo, na sociedade que a gente vê hoje em dia, por causa das histórias trazidas na época da escravidão, cabia bem no conteúdo”, disse a professora.

Letícia conta que uma das suas alunas, antes de estudar na Escola Filhos do Sol, frequentava um colégio em que ela e os colegas eram proibidos de falar de outras religiões que não fossem as cristãs, como as protestantes e católicas. A criança não poderia mencionar, portanto, que frequentava um terreiro. Na atual escola, ela se sentiu representada ouvindo a professora falar de Iansã, conta Letícia.

“O nosso país tem um número gigantesco de povos que trabalham a religião afro-brasileira e que não são tão vistos, não são tão conhecidos pelas crianças pelo perfil socioeconômico que frequentam a Filhos do Sol por pura ignorância. Trabalhar esses seres como importantes para a construção da história no Brasil traz para eles o significado de pertencimento nacional. É uma cultura diferente das que eles vivem, é um orixá, um santo, uma entidade que eles não cultuam, mas que está presente no nosso dia a dia e principalmente no Nordeste”, disse a professora.

Para Letícia, tanto os orixás quanto os outros elementos da cultura nordestina têm que ser trabalhados na sala de aula, não tendo como construir uma educação antirracista sem esses elementos que compõem a cultura.

Sobre a pedagogia Waldorf

A pedagogia Waldorf, com sua abordagem humanista, oferece um terreno fértil para a reflexão e ação em torno de questões raciais. Como professora, Alessandra acredita que é possível identificar tanto o potencial transformador dessa pedagogia quanto a necessidade de uma revisão consciente para garantir que a diversidade racial e cultural seja realmente integrada e valorizada. Segundo ela, é possível, também, usar os princípios Waldorf para nutrir uma educação que reconheça e valorize a pluralidade humana, formando indivíduos empáticos, conscientes e preparados na construção de uma sociedade mais justa.

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