A tarde da quinta-feira (27) reuniu literatura, música e arte no Centro de João Pessoa com a realização da 100ª edição do Pôr do Sol Literário, promovido pela Confraria Sol das Letras. O evento, que lotou a Academia Paraibana de Letras (APL), foi marcado pela entrega do Prêmio Solito de Literatura. O autor do livro “Quem vai chegar primeiro?”, Felipe Gesteira, foi o premiado na categoria de Literatura Infantil.
“Existem muitos prêmios literários, e grande parte deles movimenta uma indústria: é preciso se inscrever, pagar taxa e tudo mais. Eu achei sensacional o Solito de Literatura porque é um prêmio genuíno, nenhum dos premiados se inscreveu para ganhar. Foi um prêmio que escolheu os premiados”, disse o escritor, que publicou o livro pela Editora Termômetro.
Como explica Helder Moura, membro da Academia Paraibana de Letras e um dos fundadores da Confraria Sol das Letras, a seleção das obras premiadas pelo Prêmio Solito de Literatura passa pelos membros da confraria, em conjunto com acadêmicos e jornalistas. Juntos, eles avaliam os lançamentos literários. Posteriormente, realizam uma pré-seleção baseada nas indicações recebidas, definindo assim as obras que serão agraciadas com o prêmio, como ocorreu com as homenageadas na cerimônia de ontem.
Confira os outros grandes nomes da cena literária que foram homenageados e suas categorias:
Sócio da Editora Termômetro, Anderson Pires descreve a entrega do prêmio como uma ‘maravilhosa surpresa’. Em entrevista, ele destacou a importância da literatura infantil na formação da humanidade, ao afirmar que esse tipo de reconhecimento serve como estímulo para dar contínuo ao trabalho.
“A forma como eles selecionam as obras é sigilosa, nem imaginávamos que estávamos concorrendo. Isso deixa a gente ainda mais orgulhoso, pela certeza da isenção, aliada à qualificação dos jurados, que são todos conhecedores da literatura e amantes dos livros. Esse reconhecimento do trabalho é o pagamento emocional”, disse Pires.
Mais do que livros, a literatura infantil é ferramenta fundamental na construção de uma sociedade leitora e crítica. Ao celebrar obras dedicadas às crianças, promove-se não apenas o despertar do hábito da leitura desde cedo, como também o reconhecimento do poder transformador dessas narrativas, capazes de moldar perspectivas e valores desde a primeira infância.
“Sempre me inquietou a vontade de trabalhar temas que são pouco abordados na educação infantil, principalmente nas escolas. Por meio da literatura podemos ultrapassar algumas barreiras. O livro tem esse poder. A proposta em ‘Quem vai chegar primeiro?’ surgiu justamente dessa necessidade de falar de intolerância religiosa numa linguagem leve, para crianças, de forma que, também, seja possível alcançar sutilmente demais temas como equidade e ancestralidade”, disse Gesteira.
Felipe Gesteira também conta que a história que inspira a obra é a de Exu. Ele aprendeu sobre o orixá durante a sua vivência religiosa. “Aprendi sobre Exu durante minha vivência no candomblé, por isso dedico este livro também à minha mãe de santo, Iyá Lúcia Omidewá. Foi com ela que aprendi sobre Exu e hoje posso falar um pouco dos orixás por meio dos livros”, afirmou o autor do livro.
Anderson Pires não esconde o entusiasmo ao falar do trabalho na editora. Para ele, publicar literatura infantil vai muito além de uma estratégia comercial. “Cada livro que publicamos é uma alegria. A literatura infantil mexe com memórias afetivas. Independentemente de qualquer análise de mercado, a editora é nossa atividade mais prazerosa, quando o livro chega da gráfica, depois de meses de trabalho, a satisfação é tamanha que já dá vontade de fazer o próximo”, disse Pires.
Questionado sobre a produção de livros infantis na Paraíba, Anderson expressou otimismo. “A gente acredita demais nesse segmento. Antes de sermos editores, somos leitores, jornalistas, formados em Comunicação. Acreditamos na leitura como instrumento lúdico, exercício de abstração e, também, de formação de valores”, disse o sócio da editora, que também é publicitário.
A fala de Anderson Pires destaca o entusiasmo pela literatura como ferramenta de transformação, um diferencial da Editora Termômetro. “Na Paraíba existe um grupo de autores que compactuam desses mesmos conceitos e que estão investindo na literatura infantil, por crença e prazer. Isso já começa a dar resultados e, em breve, acho que haverá o reconhecimento nacional do nosso estado como um polo de produção de literatura infantil. Porque temos muita história boa pra contar”, afirmou.
Segundo Felipe Gesteira, a obra publicada pela Editora Termômetro vai além de abordar mitologia ou religião – seu cerne é a representatividade. “É magnífica a experiência de fazer uma contação de história com ‘Quem vai chegar primeiro?’ em instituições que atuam nas periferias, majoritariamente com crianças negras, e perceber o brilho nos olhos e os acenos quando a obra fala sobre orixás”, relata o autor.
A obra resgata temas que tradicionalmente foram excluídos dos currículos escolares, mantidos à margem do conhecimento formal, mas nunca esquecidos. “Nossa ancestralidade é negra, nossa cultura é vibrante. Temos mais é que celebrar tudo isso mesmo e passar adiante tanto quanto for possível”, disse Gesteira.
Fundado em dezembro de 2013, o Pôr do Sol Literário consolida-se como um dos principais eventos literários da Paraíba, reforçando o compromisso da Confraria Sol das Letras com a cultura local. Para Helder Moura, o momento também se torna uma oportunidade de divulgar a literatura do estado para os próprios paraibanos. “Isso é o que nos mais nos causa satisfação e contentamento”, disse.
“Quando nós criamos a Confraria Sol das Letras, nós imaginamos que era importante uma ferramenta capaz de divulgar aquilo que é produzido em termos literários na Paraíba, sem nos determos ao gênero. Há uma percepção de que a Paraíba é um dos estados onde mais se produz literatura, seja romance, poesia, crônicas e contos, seja a literatura infantil”, completou Moura.
O autor de “Quem vai chegar primeiro?” refletiu sobre a magnitude do Pôr do Sol Literário e a sua centésima edição. “Quantas e quantas iniciativas não começaram a ficaram pelo caminho? São 100 edições! É de se louvar e valorizar todo o trabalho que vem sendo feito em prol da literatura, porque esse trabalho não é só uma confraria para reunir amigos, mas um trabalho de fomento à literatura, que é muito importante”, disse Felipe Gesteira.