Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
O Brasil é de alguns brasileiros
Compartilhe:
Foto: reprodução YouTube

Não tem nada pior na política do que tratar a população como se fosse um bando de idiotas, incapazes de discernir diante de afirmativas feitas pelos políticos. Lembro de quando as urnas eletrônicas foram lançadas, teve quem afirmasse com veemência que as pessoas não tinham condições de votar corretamente. Era uma dessas certezas vazias, bastava lembrar que o mesmo cidadão que diziam não ter condições de usar uma urna eletrônica, fazia operações bancárias muito mais complexas. Logo, era o tipo de argumento sem fundamento, que servia a algum interesse específico.

Quando um governo resolve sintetizar o trabalho que realiza, numa frase que diz: O Brasil é dos brasileiros, brinca com a inteligência alheia e tenta impor uma percepção que, além de vazia, é falsa. Num país onde a desigualdade é o maior dos problemas, dizer que sua população é a proprietária, soa como desdém. Se existem donos, certamente, não é a grande massa de pessoas atendidas por programas sociais ou aqueles que dependem do Bolsa Família para subsistir.

A frase é de uma superficialidade gritante. Porque não traduz absolutamente nada. Fosse adotada em países com forte presença de imigrantes, seria o slogan de algum partido fascista que defende politicas xenofóbicas. Basta lembrar que variações dessa frase são slogans da extrema-direita alemã e portuguesa. 

Parece que esse é mais um daqueles casos em que o burro com iniciativa resolve agir. Será que existe algum sentimento de perda da propriedade pelo povo brasileiro em relação ao país? Ou é apenas mais um caso de resposta ao próprio umbigo, visto que políticos bolsonaristas que fazem oposição ao Governo Lula defendem abertamente a intervenção americana no Brasil? Quem está envolvido nesse tipo de disputa polarizada? Para quem os conceitos publicitários do Governo Federal precisam ser direcionados?

Muitos irão dizer que o governo certamente tem dados que fundamentam esse tipo de conceito e a campanha publicitária. Mas não se enganem, os dados nem sempre são lidos corretamente e o marketing político sofre influências que não se traduzem em lógica, mas sim em vontades. Geralmente, é nesse campo que os erros acontecem.

Clique aqui para ler todos os textos de Anderson Pires

Porque dizer que o Brasil é dos brasileiros é uma resposta para os adversários políticos. Para mim é um erro gritante, reflexo de um misto de vaidade e truculência. Fica ainda mais evidente, que a frase foi jogada como uma imposição burra, quando assistimos os vídeos da campanha, que apresentam uma série de realizações positivas, políticas públicas que servem aos mais pobres e indicadores econômicos que mostram que o país tem condições de recuperação e desenvolvimento. Mas marketing não pode ser feito com ranço, muito menos com a lógica conservadora do contratante que acredita que sua vontade é mais sabia que a percepção do público.

Esse tem sido um erro constante no terceiro governo Lula. Nessa lógica tem perdido a perspectiva de um partido progressista com viés de esquerda. Isso se reflete em várias atitudes, desde as relações com o parlamento, onde sempre se adequa aos acordos e a opção mais à direita, até quando tenta justificar que a primeira-dama deve ser tratada como autoridade, mesmo que não tenha recebido um voto para isso. Algo que já fui muito criticado pelo PT em milhares de cidades do país, em que os gestores se comportam como donos dos municípios e estendem o poder aos seus familiares.

Pois é, o Brasil não é dos brasileiros. Aliás, se for feita uma análise apurada de quem são os donos do país, veremos que além de muito poucos, os cinco mais ricos, proprietários do maior pedaço, nem aqui moram. Mas usufruem da propriedade, das benesses estatais em forma de crédito e isenções, da impunidade em relação aos crimes contábeis e fiscais que praticam, assim como, exploram as riquezas brasileiras de longe, já que estão gastando o que tiram daqui na Europa e nos Estados Unidos onde residem.

O Governo Lula certamente tem o que mostrar. É inegável que tem um governo melhor que o de Bolsonaro, em todos os sentidos. Mas resolveu copiar alguns vícios do bolsonarismo em relação à comunicação, posicionamento político polarizado, falar para os que sempre lhe apoiaram e acreditar que tudo que propaga é provido de boa intenção, mesmo que fira a inteligência alheia e os princípios democráticos.

Compartilhe: