Como construir cidades para o desenvolvimento saudável das crianças? Em tempos de discussão sobre plano diretor nas cidades, a provocação da imobiliária Refúgios Urbanos, idealizadora do livro “Prédios de São Paulo para crianças” (Brava, 2020, 92p.), é mais do que pertinente. Afinal, diante de tantos problemas urgentes, parece que ninguém pensa nas cidades para as crianças, mas independentemente de serem elas quem farão o futuro, é exatamente do uso no presente que se trata a questão, seja em São Paulo ou em qualquer outra cidade.
O artigo 27 da Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de novembro de 1989 e que passou a vigorar no Brasil em 2 de setembro de 1990, diz que “Os Estados Partes reconhecem o direito de todas as crianças a um nível de vida adequado ao seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social.” Mais adiante, no mesmo documento, o artigo 31 determina que “Os Estados Partes reconhecem o direito da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento e às atividades recreativas próprias da idade, bem como à livre participação na vida cultural e artística.”
Para discutir os direitos de uma criança, bem-estar social, lazer, divertimento, desenvolvimento e livre participação na vida cultural e artística é imprescindível debater também o direito à cidade, assim como o acesso a espaços públicos.
De autoria de Matteo Gavazzi e Tatiana Engelbrecht, com ilustrações de Daniel Almeida, “Prédios de São Paulo para crianças” faz um roteiro turístico pela capital paulista repleto de histórias, arquitetura e curiosidades, tudo isso tendo como personagem um cachorro que faz o trabalho de guia para o leitor.
Apesar da linguagem lúdica para atrair os pequenos, o livro traz informações interessantes também para muita gente grande. Eu que sou casado com uma paulistana e já fiz parte do roteiro proposto ao lado da minha ‘guia’ local, confesso que fiquei me coçando para fazer tudo de novo, dessa vez seguindo a rota exata conforme propõe Miro, o personagem da raça rastreador brasileiro.
O livro apresenta diversos prédios que contam a história de São Paulo, com uma única exceção, a Casa Mathilde, que chegou ao Brasil em 2013, por isso destoa um pouco do resto, mas nada que atrapalhe o conjunto da obra.
Outro ponto que chama atenção é a postura antifascista dos autores. No capítulo sobre o Edifício Matarazzo, o texto diz que “o projeto foi encomendado ao arquiteto italiano Marcello Piacentini, o preferido do ditador Benito Mussolini, criador do regime fascista na Itália”. Em seguida o autor conta que a varanda no prédio foi construída para que o ditador pudesse discursar quando viesse ao Brasil, e logo comemora: “o que, felizmente, nunca aconteceu”.
“Prédios de São Paulo para crianças” desperta o interesse dos pequenos pela arquitetura e urbanismo de forma leve. Faz um convite à cidade, à leitura, ao uso do espaço público e não somente a São Paulo, pois inquieta o leitor a também a propor seu próprio roteiro no centro histórico da cidade onde vive.